SCA — Guia Completo | MedCaju
⬡ ACC/AHA 2025 · UNIFACID · Prof. Thiago Nunes

Síndrome
Coronariana
Aguda

Guia integrado de estudo — transcrição da aula + slides do guideline. Do diagnóstico à prevenção secundária.

Com supra · Sem supra · Scores · Reperfusão · Farmacologia completa
01

Classificação da Dor Torácica

Tipos A → D + Equivalentes Anginosos
Tipo Denominação Características Conduta
A Definitivamente anginosa Retroesternal opressiva, esforço → alívio com repouso ou nitrato <10 min, irradia p/ ombro/mandíbula/braço esquerdo Tratar como SCA
B Provavelmente anginosa Maioria das características típicas, mas não todas Estratificar — acender a luz no paciente
C Provavelmente não anginosa Poucas características anginosas HEART Score + investigar
D Definitivamente não anginosa Nenhuma característica anginosa Investigar outra causa
ε Equivalentes anginosos Diaforese, dispneia, náusea, dor abdominal, síncope Considerar SCA mesmo sem dor
💡
Exemplo clínico: Dor retroesternal que irradia pro braço e aliviou com nitrato, mas não foi desencadeada por esforço → Tipo B (provavelmente anginosa) → estratificação obrigatória.
⚠️
Sempre considere o contexto clínico completo. Trabalhador rural que caiu do telhado e tem dor 2 dias depois → provavelmente traumática, não anginosa. O conjunto de características define a classificação.

02

Fisiopatologia e Classificação Universal

Diferença entre as SCAs — O que muda na coronária
IAMCSST

Oclusão TOTAL da coronária → supra de ST no ECG

oclusão total
VS
AI / IAMSSST

Oclusão PARCIAL → fluxo residual → infra de ST ou inversão de T

fluxo residual
Sequência da Ruptura de Placa (IAM Tipo 1)
Acúmulo de fatores de risco
HAS, DM, tabagismo, dislipidemia, sedentarismo, história familiar → formação de placa aterosclerótica
Ruptura da placa
Conteúdo lipídico cai na luz coronariana → organismo interpreta como corpo estranho
Ativação da cascata de coagulação
Formação de trombo sobre a placa rota → oclusão parcial ou total
Isquemia / Necrose miocárdica
Desequilíbrio entre oferta e demanda de O₂ → elevação de troponina → infarto
Classificação Universal do IAM — 4ª Definição
TipoMecanismoTratamento-chave
Tipo 1Ruptura/erosão de placa + trombo (mais comum)Antiagregação + reperfusão
Tipo 2Desbalanço oferta/demanda (ex: idoso com pneumonia + placa >70%)Tratar a causa base — não trombolítico
Tipo 3Morte súbita de origem isquêmica provável (diagnóstico pós-morte)
Tipo 4a/b/cAngioplastia (4a), trombose de stent (4b), reestenose (4c)Conforme situação
Tipo 5Cirurgia de revascularização (safena/mamária)Conforme situação

03

ECG na SCA

🚨
Regra de ouro: ECG em <10 minutos após chegada. Repetir seriado a cada 3h ou se houver recorrência da dor. ECG inicial normal NÃO descarta SCA.
Anatomia do ECG — O que medir
TRAÇADO ESQUEMÁTICO — referências anatômicas
ECG NORMAL SUPRA DE ST (IAMCSST) QRS Ponto J ST elevado ↕ supra linha PQ
Linha de base: segmento PQ (junção PR–QRS)
Ponto J: transição entre fim do QRS e início do segmento ST
J acima da linha de base → supradesnivelamento de ST
J abaixo da linha de base → infradesnivelamento de ST
Critérios de Supradesnivelamento — IAMCSST
Derivação / GrupoCritério (ponto J)
Homem <40 anos — V2/V3≥ 2,5 mm
Homem ≥40 anos — V2/V3≥ 2,0 mm
Mulher (qualquer idade) — V2/V3≥ 1,5 mm
Todas as outras derivações≥ 1,0 mm
V3R, V4R (VD) / V7–V9 (posterior)≥ 0,5 mm
Topografia do Infarto — Derivações e Artéria Culpada
ParedeDerivaçõesArtéria Culpada
SeptalV1, V2DA (descendente anterior)
AnteriorV3, V4DA
LateralV5, V6, D1, aVLCx ou DA
InferiorD2, D3, aVFCD (80%) ou Cx
Ventrículo DireitoV3R, V4RCD proximal
Posterior / DorsalV7, V8, V9Cx
⚠️
Infarto inferior (D2, D3, aVF): sempre fazer V3R/V4R para descartar infarto de VD. Se positivo → evitar nitrato (risco de choque por queda de pré-carga).
Evolução Temporal do ECG no IAMCSST
Minutos
Fase Hiperaguda

Ondas T apiculadas, altas, simétricas. Primeiro sinal — fugaz.

Horas
Fase Aguda

Supra de ST (convexidade superior — "Pardee")

Dias
Fase Subaguda

Inversão de onda T + surgimento de ondas Q patológicas

Meses
Fase Crônica

Onda Q persiste (zona nativa = sequela). ST e T normalizam.

ℹ️
Onda Q patológica (zona elétrica inativa): QRS começa negativo = onda Q. Duas ondas Q na mesma parede → área infartada. Quanto maior a zona, maior risco de IC residual.
ECG na SCA SEM Supra

Alterações típicas:

  • Infra de ST retificado ≥ 0,5 mm
  • Inversão de onda T ≥ 2 mm (simétrica e pontiaguda, ≥ 2 derivações contíguas)
  • ECG pode ser completamente normal
🔑
ECG normal não descarta SCA sem supra. A troponina com curva é o diferenciador.

04

Troponina

Ultrassensível vs. Convencional
Troponina Ultrassensível
Início de elevação: ~1–2h do início da dor
Protocolo: T0 + T1h ou T0 + T2h
Delta positivo: variação >20–30% do basal ou >5 ng/L
Pico: 12–24h
Troponina Convencional
Início de elevação: ~6h do início da dor
Protocolo: T0 + T6h + T9–12h
Confirmar com curva entre T6 e T12
Pico: 12–24h
Interpretação Diagnóstica
ResultadoDiagnóstico
Troponina com curva característica (sobe e desce)IAMSSST
Troponina normal em todas as dosagens + critérios de SCAAngina Instável
Troponina positiva sem curvaCausa não coronariana (ver abaixo)
Causas de Troponina Positiva Sem Infarto
IC descompensada TEP (embolia pulmonar) Miocardite / pericardite Doença renal crônica Miocardipatia Sepse Cardioversão elétrica
🔑
Nessas situações, não haverá a curva característica de ascensão e queda progressiva típica do infarto. O contexto clínico + ECG + curva definem.

05

Scores de Risco

Quando usar cada score
ScoreQuando usarPara quê serve
HEART Dor com baixa ou moderada suspeita, ECG e troponina duvidosos ou negativos Decidir alta vs. internação no PS
TIMI SCA sem supra já confirmada Estratificação prognóstica (simples, decorável)
GRACE SCA sem supra já confirmada Prognóstico mais preciso (requer calculadora/app)
⚖️
Discordância TIMI/GRACE: sempre usar o pior score (maior risco). Pecar por excesso na cardiopatia isquêmica.
🔗 3 Variáveis Comuns a Todos os Scores
👴
Idade avançada
📉
Alteração eletrocardiográfica
🔬
Marcadores positivos
TIMI Score — 7 Critérios (1 ponto cada)
1Idade ≥ 65 anos
2≥ 3 fatores de risco coronariano (HAS, DM, dislipidemia, tabagismo, história familiar*)
3Estenose coronariana ≥ 50% documentada em cateterismo prévio
4Infra de ST ≥ 0,5 mm no ECG admissional
5≥ 2 episódios anginosos nas 24h prévias
6Uso de AAS nos 7 dias prévios
7Elevação de troponina

*História familiar: parente de 1° grau com evento coronariano — homem <55 anos ou mulher <65 anos

0–2
Baixo risco
3–4
Intermediário
5–7
Alto risco
GRACE Score — 8 Variáveis Contínuas
Idade Classificação de Killip PA sistólica FC Creatinina Desvio do ST PCR na admissão Marcadores de necrose
≤108
Baixo <1% mort.
109–140
Intermediário 1–3%
>140
Alto >3% mort.

Mais preciso que TIMI para mortalidade hospitalar e em 1 ano. Requer calculadora ou app.

HEART Score — Fluxograma de Decisão no PS
DOR TORÁCICA AGUDA
SCA evidente
Tratar como SCA
Casos duvidosos
Seriar Troponina e ECG
sem alteração
Aplicar HEART Score
≤ 3 pontos
Alta + seguimento ambulatorial
> 3 pontos
Teste não invasivo ou estratégia invasiva

06

Estratégia Invasiva — Timing do Cateterismo

🔑
Estratégia invasiva = cateterismo. Cateter pela artéria radial (≈100% dos casos hoje) → contraste visualiza coronárias diretamente → identifica estenoses e define conduta.
Timing por Nível de Risco
RiscoCritérios ClínicosTiming
Muito Alto Instabilidade hemodinâmica, arritmia grave, isquemia/dor refratária, edema agudo de pulmão, choque cardiogênico < 2h (emergencial)
Alto TIMI ≥ 5 ou GRACE > 140, troponina elevada, infra de ST significativo < 24h (urgente)
Intermediário GRACE 109–140, DM, FE < 40% 24–72h (precoce)
Baixo GRACE < 109, sem alterações, HEART ≤ 3 Eletiva ou TC de coronárias + alta
💡
Realidade do Piauí: cateterismo disponível apenas em Teresina e Parnaíba. Demais municípios → trombólise. Desde 2022: trombolítico disponível em 32 pontos do estado.
⚠️ Quando fazer o 2º Antiagregante antes do Cateterismo?
🚫
Muito Alto ou Alto risco (<24h):
NÃO fazer antes do catete — paciente pode ser cirúrgico. Prasugrel e ticagrelor aumentam sangramento intraoperatório. Aguardar sala de hemodinâmica.
Intermediário ou Baixo (sem catete em 24h):
Pode e deve fazer antes. Preferência: ticagrelor ou clopidogrel (prasugrel só na sala de hemodinâmica com anatomia conhecida).

07

Farmacologia — Tratamento Completo

Medidas de Suporte Geral
Monitorização ECG contínua, PA a cada 6h, oximetria
Acesso venoso calibroso
Internação: UCO/UTI (risco intermediário/alto) ou PS (baixo)
O₂ suplementar: apenas se SpO₂ < 90%
ℹ️
O₂ rotineiro em normoxêmicos: sem benefício e potencial vasoconstrição. Critério atual: SpO₂ < 90% (antes era <95%).
Controle da Dor
Nitrato
SL: 0,4 mg a cada 5 min (máx 3 doses) · IV: nitroglicerina contínua
Vasodilatador coronariano e sistêmico. Preferir ao morfina (morfina reduz biodisponibilidade dos P2Y12).
Morfina IV
2–4 mg IV; repetir a cada 5–10 min se necessário
Para dor refratária ao nitrato.
Contraindicações do Nitrato
PAS <90 mmHg Infarto de VD (parede inferior) FC <50 ou >100 bpm Sildenafil 24h / Tadalafil 48h
Terapia Antiagregante — Dupla Antiagregação Plaquetária
💊
AAS: 100–325 mg (mastigar). Para todos. Vida toda na alta.
Droga (P2Y12)SituaçãoDose de AtaqueManutenção
Ticagrelor preferencial ICP ou sem catete em 24h (exceto se for cirúrgico) 180 mg 90 mg 12/12h
Prasugrel sala de hemodi. Só após anatomia conhecida, dentro da sala de hemodinâmica 60 mg 10 mg/dia
Clopidogrel mais disponível Sem perspectiva de catete em 24h (SUS/interior); <75 anos: 300 mg; ≥75 anos: 75 mg s/ carga 300–600 mg 75 mg/dia
3–6 m
Alto risco de sangramento
12 m
Padrão (Classe I)
>12 m
Alto risco isquêmico
Anticoagulação
Enoxaparina
<75a: 30mg IV + 1mg/kg SC 12/12h
≥75a: 0,75mg/kg SC s/ bolus
Preferencial para maioria dos pacientes com estratégia invasiva não urgente.
HNF
Bolus 60–70 UI/kg + 12 UI/kg/h
Ajustar pelo TTPA de 6/6h
Catete imediato planejado ou IRC grave. Difícil de ajustar no SUS.
Fondaparinux
2,5 mg SC 1x/dia
(ajustar se ClCr <30)
Estratégia conservadora ou alto risco de sangramento.
Betabloqueadores · Estatinas · IECA/BRA
Beta-bloqueador
Metoprolol 25–100mg 12/12h
Carvedilol 3,125–25mg 12/12h
Iniciar VO nas primeiras 24h se estável. Evitar IV se risco de choque. Indicação obrigatória se FE ≤40%.
Estatina alta potência
Atorvastatina 40–80mg/dia
Rosuvastatina 20–40mg/dia
Para todos, precocemente. Meta LDL <55 mg/dL. Independente do LDL basal.
IECA / BRA
Enalapril 2,5–20mg 12/12h
Ramipril 2,5–10mg 1x/dia
Iniciar em 24h se: FE <40%, DM, DRC ou IAM de parede anterior.

08

Reperfusão no IAMCSST

10'
Porta–ECG
30'
Porta–Agulha (lítico)
90'
Porta–Balão (local)
120'
Porta–Balão (transfer)
Algoritmo de Reperfusão
IAMCSST confirmado (sintomas <12h)
Hospital com hemodinâmica disponível?
✓ SIM
ICP Primária
Meta: <90 min
✗ NÃO
Transferência para sala em <120 min?
Transferir para ICP
Trombólise
Meta: <30 min
Transferir para angiografia em 2–24h após
Elegibilidade para Reperfusão
JanelaCondutaClasse
<12h Reperfusão indicada para todos os pacientes com supra persistente Classe I
12–24h Razoável se sintomas persistentes, instabilidade hemodinâmica ou arritmias graves Classe IIa
>24h ICP de rotina em artéria ocluída, paciente assintomático e estável: NÃO recomendada Classe III
Fibrinolíticos — Quando e Como
Tenecteplase (TNK)
Bolus único IV (5–10 seg)
PesoDose
<60 kg30 mg
60–69 kg35 mg
70–79 kg40 mg
80–89 kg45 mg
≥90 kg50 mg
≥75 anos: reduzir dose 50%
Alteplase (tPA)
Infusão acelerada 90 min
  • Passo 1: 15 mg IV bolus
  • Passo 2 (30 min): 0,75 mg/kg (máx 50 mg)
  • Passo 3 (60 min): 0,50 mg/kg (máx 35 mg)
Mais complexo de administrar.
Contraindicações Absolutas
AVC hemorrágico prévio AVC isquêmico <3 meses Neoplasia intracraniana / MAV Sangramento interno ativo Suspeita dissecção de aorta TCE grave <3 meses
Critérios de Sucesso da Trombólise (avaliar em 60–90 min após o término)
≥50%
Redução do supra na maior derivação
💊
Melhora significativa da dor
Arritmia de reperfusão (RIVA)
🔄
Se critérios de sucesso não atingidos → falha da trombólise → transferência emergencial para ICP de resgate.
🫀 Revascularização Completa — Classe I (ACC/AHA 2025)

Tratar não apenas o vaso culpado, mas todas as estenoses ≥70% em vasos não culpados (doença multiarterial). Superior à estratégia de vaso culpado isolado na redução de morte cardiovascular ou novo infarto.

Imediata
No mesmo procedimento
≤45 dias
Estagiada (antes da alta ou logo após)
Principais Complicações do IAMCSST
Arritmias: TV/FV (principais causas de morte pré-hospitalar, primeiras 48h) · FA (pior prognóstico) · BAV (infarto inferior, geralmente transitório)
Choque cardiogênico: perda >40% da massa do VE → hipotensão + congestão + hipoperfusão
Ruptura de parede livre: tamponamento cardíaco + dissociação eletromecânica
CIV pós-infarto: sopro holossistólico novo + choque · mortalidade ~50%
Ruptura de músculo papilar: IM aguda grave + EAP
⚠️
Complicações mecânicas são muito mais frequentes quando não se realiza a reperfusão (paciente chegou após 12h, sem trombolítico disponível).

09

Prevenção Secundária — ABCDE

A
Antiagregantes + Antagonistas SRAA
AAS + inibidor P2Y12 por 12 meses · IECA/BRA se FE <40%, DM ou DRC
B
Beta-bloqueador + Blood Pressure
Obrigatório se FE ≤40% ou isquemia residual · Meta PA <130/80 mmHg
C
Colesterol + Cigarro
Estatina alta potência — meta LDL <55 mg/dL (considerar ezetimiba/iPCSK9) · Cessação tabágica obrigatória
D
Dieta + Diabetes
Dieta do Mediterrâneo · Priorizar iSGLT2 e aGLP1 no diabético (benefício cardiovascular)
E
Exercício + Educação
Reabilitação cardíaca · Vacinação (Influenza/Pneumococo) · Encorajar atividade física após fase aguda
✅ Mensagens Finais — O que não pode esquecer
Tempo é miocárdio: ECG <10 min · porta-balão <90 min · porta-agulha <30 min
Estratificação precisa: HEART para triagem inicial · TIMI + GRACE para prognóstico na SCA confirmada
Revascularização completa (Classe I): tratar todas as lesões ≥70% na mesma internação ou em até 45 dias
Angio-TC de coronárias: alta sensibilidade negativa — ideal para descartar SCA em baixo/intermediário risco com ECG e troponina inconclusivos
Prevenção secundária agressiva: LDL <55 mg/dL · DAPT 12 meses · cessação tabágica · controle rigoroso das comorbidades
ACC/AHA GUIDELINE 2025 · UNIFACID | IDOMED · Prof. Thiago Nunes Pereira Leite · MedCaju