Oncologia — Fudamentos

01 Contexto histórico e transição epidemiológica

Até meados do século XX, as doenças infecciosas — em especial a tuberculose — dominavam o cenário de mortalidade. A partir daí, com os avanços no diagnóstico e no tratamento farmacológico, as mortes por infecção foram caindo progressivamente.

Com isso, as pessoas passaram a viver mais, e as atenções se voltaram para as chamadas doenças crônico-degenerativas: hipertensão, cardiopatias, doenças vasculares cerebrais e câncer. Essas doenças demoram mais tempo para surgir, mas tornaram-se as principais causas de óbito na atualidade.

Ponto central: o que mais impacta a sociedade são os óbitos. A queda na mortalidade por infecções permitiu que a população envelhecesse — e o envelhecimento é o maior fator de risco isolado para o câncer.

02 O que é o câncer?

O câncer é o crescimento celular desordenado. As células começam a se multiplicar sem respeitar limites, aumentando em número (não necessariamente em tamanho), passando por fases como displasia e anaplasia.

Definição central: crescimento celular desordenado que não respeita limites e que pode, eventualmente, invadir estruturas adjacentes e causar doença à distância — as metástases.

A primeira alteração ocorre no núcleo da célula, no DNA. Essa alteração é então transmitida para as células filhas ao longo das divisões celulares sucessivas.

Câncer: doença do jovem ou do idoso?

Em geral, é uma doença de indivíduos mais velhos, porque a carcinogênese leva tempo — décadas de acúmulo de mutações. Entretanto, em alguns casos, especialmente quando há predisposição genética herdada, o câncer pode aparecer em idades jovens (ex.: síndromes familiares como FAP, osteocondroomatose múltipla).

03 Fatores de risco para o câncer

Hábitos de vida

  • Tabagismo — o principal fator ambiental. Funciona como agente de indução (causa a primeira mutação no DNA). Epidemiologistas sugerem que até um único cigarro pode causar a mutação inicial — mas o câncer exige acúmulo ao longo do tempo.
  • Etilismo — especialmente associado a cânceres de cabeça e pescoço, esôfago e fígado.

Exposição a agentes físicos

  • Radiação solar — especialmente em peles claras; risco aumentado em áreas de cicatriz por queimadura de 3º grau com perda de substância.
  • Queimaduras graves criam áreas lesadas que, sob radiação, têm risco aumentado para câncer de pele.

Predisposição genética

  • Osteocondroomatose múltipla familiar — indivíduo nasce com tendência a desenvolver osteocondroomas (tumores benignos) que podem progredir para osteossarcoma.
  • FAP (Polipose Adenomatosa Familiar) — centenas de pólipos no intestino grosso. 100% dos portadores desenvolvem câncer, geralmente por volta dos 40–45 anos.

Condições adquiridas

  • Cicatrizes de queimaduras profundas
  • Lesões crônicas não cicatrizadas
  • Processos inflamatórios crônicos
  • Lesões pré-cancerosas (ver seção 5)

04 História natural do câncer

A história natural do câncer pode durar até 30 anos de forma subclínica — o paciente não sente nada e, muitas vezes, o tumor não é detectável pelos métodos disponíveis.

InduçãoPrimeira mutação no DNA
PromoçãoExposição contínua ao agente; acúmulo de mutações
ProgressãoCrescimento tumoral, invasão local
MetástaseDoença à distância

Sobre a detecção pelo tamanho

Um tumor se torna visível em radiografia simples quando atingiu aproximadamente 10⁸ células (menos de 1 cm). O diagnóstico clínico costuma ser possível a partir de 10¹² células. Todo o período anterior de crescimento permanece subclínico e indetectável com os métodos atuais.

Isso explica por que o diagnóstico precoce é tão difícil: por décadas, o tumor cresce sem que o paciente sinta qualquer coisa e sem que os exames o detectem.

05 Lesões pré-cancerosas

Definição (OMS): lesão que pode sofrer transformação maligna com maior probabilidade do que o tecido normal, mas que pode permanecer estável por anos ou décadas — e, se o fator irritativo for removido, pode até regredir.

Leucoplasia

Definição (OMS): placa branca em mucosa que não sai à raspagem e que não pode ser classificada como outra doença.

  • A raspagem é o critério que diferencia leucoplasia de candidíase (que sai).
  • O diagnóstico é de exclusão — é necessário afastar todas as outras doenças que cursam com placa branca em mucosa.

FAP (Polipose Adenomatosa Familiar) — revisão

Síndrome genética com centenas de pólipos no intestino grosso. 100% dos portadores que manifestam a doença desenvolverão câncer colorretal em torno dos 40–45 anos. Conduta habitual: colectomia total, com reconstrução do trânsito intestinal por anastomose (facilitada pelos grampeadores lineares e circulares modernos), evitando ao máximo a colostomia permanente.

Esôfago de Barrett

Metaplasia do epitélio esofágico distal secundária ao refluxo gastroesofágico crônico. É considerada lesão pré-cancerosa para adenocarcinoma de esôfago. Detectada e monitorada por endoscopia com biópsia dirigida (com corante como lugol para evidenciar áreas suspeitas).

06 Diagnóstico — visão geral

Por que o diagnóstico é tardio?

As principais causas de diagnóstico tardio são:

  • Longo período assintomático — muitos tumores crescem por anos sem causar sintomas.
  • "Ignorância" do paciente (sem conotação pejorativa) — o paciente não imagina que seus sintomas possam ser câncer e evita associar o que sente à doença.
  • Dificuldade de acesso ao sistema de saúde — especialmente em regiões onde o serviço especializado é centralizado (ex.: no Piauí, a maioria dos serviços está concentrada em Teresina, obrigando pacientes a percorrer longas distâncias).
  • Despreparo dos profissionais de saúde — não apenas médicos. O dentista, por exemplo, é o profissional mais provável de fazer o diagnóstico precoce de câncer de boca — e precisa estar preparado para isso.
Regra prática: quanto mais cedo o diagnóstico → menores as lesões do tratamento → menores cicatrizes e morbidade → maiores taxas de cura e sobrevida.

Cânceres mais curáveis quando diagnosticados precocemente

Pele (não melanoma), mama, colo de útero, reto. O diagnóstico precoce depende de rastreamento ativo, pois os pacientes frequentemente não sentem nada nas fases iniciais.

Biópsia — único método de certeza diagnóstica

Nenhum diagnóstico de câncer pode ser firmado sem estudo histopatológico, ou seja, sem análise do tecido pelo patologista. Sem biópsia, não se institui tratamento.

  • Se a biópsia for positiva → estadiar e iniciar o tratamento adequado.
  • Se for negativa → não encerrar a investigação se a suspeita clínica for forte. Repetir a biópsia, comparar com exames de imagem e acompanhar o paciente.
Medicina não é matemática: existem falsos positivos e falsos negativos. A clínica não pode ser abandonada em função de um único resultado.

07 Anamnese do paciente oncológico

O paciente oncológico passa, em geral, por quatro momentos principais:

Diagnóstico
Estadiamento
Tratamento
Seguimento / Follow-up

O fator tempo na anamnese

A pergunta "há quanto tempo?" é uma das mais importantes na avaliação de um caroço ou massa:

Tempo de evoluçãoHipótese mais provável
Dias (6–10 dias)Processo inflamatório / infeccioso (ex.: linfadenopatia reacional)
Meses (crescendo há 4–6 meses)Suspeita aumentada de neoplasia; investigar ativamente
Anos (há 5–6 anos, estável)Provavelmente benigno; neoplasia maligna teria progredido

Componentes da anamnese oncológica

  • Queixa principal e duração dos sintomas
  • História da doença atual — relato espontâneo e, quando necessário, dirigido
  • Procedimentos já realizados — cirurgias, biópsias, tratamentos anteriores
  • Hábitos pessoais — tabagismo e etilismo são os principais fatores ligados ao câncer
  • História familiar — síndromes hereditárias
  • Dados epidemiológicos — idade, sexo, raça (influenciam a incidência de certos cânceres)

Exame físico

Em oncologia, dá-se especial atenção ao exame físico locorregional: avaliar o tumor primário e os linfonodos regionais daquela topografia (que são os primeiros sítios de metástase linfática).

Como o médico chega ao diagnóstico?

MétodoDescrição e limitações
Experiência práticaO médico com mais experiência tende a acertar mais — mas pode ter viés: ao reconhecer um padrão já visto muitas vezes, pode ignorar diagnósticos diferenciais importantes.
Experiência em publicaçõesMédicos com menos experiência buscam literatura. Essencial para manter-se atualizado e ampliar o repertório diagnóstico.
Intuição clínicaEstudos sugerem que mulheres acertam mais diagnósticos de câncer, possivelmente por maior atenção a detalhes clínicos sutis.
Método de exaustãoPedir todos os exames possíveis. Ineficiente. Não é o método ideal, mas é comum entre profissionais menos experientes com medo de errar.
Método hipotético-dedutivoExplicar todos os sintomas por uma única doença (navalha de Occam). É o mais utilizado — mas o câncer pode coexistir com outras doenças e produzir múltiplos sintomas.

08 Exames complementares em oncologia

Os exames complementares — especialmente os de imagem e o histopatológico — são essenciais em oncologia. Hoje, um médico que não os solicita é considerado inadequado clinicamente.

Regra prática de solicitação: um exame complementar deve ser solicitado quando há pelo menos 10% de chance de ser positivo. Abaixo disso, o exame não se justifica pela suspeita clínica.

Para que servem os exames complementares em oncologia?

  • Firmar o diagnóstico
  • Avaliar a extensão do tumor (estadiamento)
  • Planejar o tratamento
  • Avaliar a resposta ao tratamento (comparação pré e pós)
  • Fazer o seguimento (follow-up) após o tratamento

Outros recursos diagnósticos

  • Imuno-histoquímica — reação antígeno-anticorpo com coloração especial para definir a linhagem do tumor (via patologia)
  • Biologia molecular / PCR — identificação de mutações específicas no DNA
  • Marcadores tumorais séricos — ex.: PSA para próstata; ajudam no rastreamento e no seguimento, mas com cuidado para falsos positivos/negativos

09 Exames de imagem

O que os exames de imagem buscam responder?

  • Qual o tamanho do tumor primário?
  • Qual a relação com estruturas adjacentes? (ex.: carina, grandes vasos)
  • Há comprometimento de linfonodos regionais?
  • Existem metástases à distância? Onde?
Sítios mais comuns de metástase à distância: pulmões, fígado, ossos, cérebro. Metástases ósseas seguem o esqueleto axial: coluna vertebral, crânio, costelas e pelve.

Principais métodos de imagem

MétodoCaracterísticas e indicações
Radiografia simples Primeira imagem. Branco = osso, preto = ar, cinza = partes moles. Detecta tumores a partir de ~10⁸ células. Atenção: lesões discretas passam despercebidas mesmo a radiologistas experientes.
Tomografia computadorizada (TC) Usa raios X. Excelente detalhamento anatômico. Principal método para estadiamento. Permite guiar biópsias (biópsia percutânea guiada por TC).
Ressonância magnética (RM) Sem radiação. Superior para partes moles, SNC, músculo-esquelético e tumores de difícil avaliação clínica. Mais ruidosa e demorada.
Ultrassonografia (US) Exame operador-dependente — o laudo vale mais do que as imagens isoladas. Guia biópsias (ex.: tireoide com punção aspirativa de agulha fina — PAAF).
PET-CT (PET-scan) Combina TC anatômica com cintilografia funcional (substância radioativa, ex.: FDG). Avalia metabolismo celular. Útil para detecção de metástases e avaliação de resposta ao tratamento.
Cintilografia óssea Substância radioativa absorvida pelo tecido ósseo. Detecta metástases ósseas (ex.: câncer de próstata metastático). Avalia esqueleto axial com boa sensibilidade.

Biópsia guiada por imagem — riscos

É o método mais seguro para obtenção de tecido em tumores profundos. Riscos existem, mas são baixos:

  • Pneumotórax — especialmente na biópsia pulmonar percutânea guiada por TC. O paciente pode sair da sala de tomografia com dreno de tórax, se ocorrer pneumotórax (risco maior em tabagistas com enfisema e bolhas).
  • Sangramento — perfuração de vasos no trajeto da agulha.
  • Óbito — extremamente raro (~0,05%), mas existe.
A biópsia guiada por imagem continua sendo amplamente realizada porque o risco é baixo e o benefício diagnóstico é alto — sem ela, não é possível confirmar se há câncer.

Problema da cicatriz residual pós-tratamento

Um dos grandes desafios em oncologia é diferenciar, no exame de imagem pós-tratamento, se uma opacidade residual representa tumor viável ou apenas fibrose/cicatriz. Isso exige comparação com exames anteriores e, frequentemente, seguimento com exames seriados.

10 Endoscopia em oncologia

Permite visualização direta da mucosa e coleta de biópsias. Os principais tipos são:

Endoscopia digestiva alta (EDA)

  • Avalia esôfago, estômago e duodeno
  • Diagnóstico de lesões de esôfago, Barrett, gastrite, pólipos gástricos, câncer gástrico
  • Pode associar ultrassom endoscópico para avaliar profundidade da lesão nas camadas da parede
  • Lugol e outros corantes facilitam a identificação de áreas suspeitas para biópsia dirigida

Colonoscopia (endoscopia digestiva baixa)

  • Avalia todo o intestino grosso
  • Diagnóstico e seguimento de pólipos e câncer colorretal
  • Rastreamento recomendado a partir dos 50 anos em população geral
  • Indicado antes dos 50 em pacientes com FAP e outros fatores de risco familiares
CPRE (Colangiopancreatografia Retrógrada Endoscópica): combina endoscopia com radiologia para visualizar a árvore biliar e pancreática. Realizada pelo endoscopista com suporte do radiologista.
Riscos das endoscopias: mesmo em mãos experientes, existe risco de perfuração de esôfago, estômago ou cólon. Raro (<0,2–1%), mas real. A indicação deve ser criteriosa.

11 Rastreamento e prevenção

Prevenção primária × secundária

Prevenção primária

Depende de educação populacional e políticas públicas. Atua nos fatores de risco antes da doença surgir (ex.: campanhas anti-tabagismo, proteção solar, vacinação contra HPV).

Prevenção secundária

Diagnóstico precoce e pré-clínico — antes que o paciente sinta qualquer coisa. Identifica alterações teciduais iniciais (ex.: displasia, NIC) quando o tratamento ainda é curativo.

Requisitos para um bom programa de rastreamento

  • Identificação da população de alto risco — rastreamento universal é inviável; foca-se nos grupos com maior probabilidade de doença (ex.: rastreamento de câncer de pulmão em tabagistas)
  • Participação da população — campanhas de conscientização nas mídias
  • Alta sensibilidade dos testes — exame que erra muito faz a população perder confiança e aderir menos
  • Eficiência no seguimento e tratamento — não adianta fazer o diagnóstico precoce se o paciente não tiver acesso ao tratamento adequado

Desvantagens dos programas de rastreamento

  • Alto custo (logística, profissionais, exames, deslocamento)
  • Exames invasivos têm riscos (ex.: colonoscopia, endoscopia)
  • Falsos positivos — exame positivo → biópsia → negativo. Geram ansiedade e procedimentos desnecessários.
  • Falsos negativos — exame negativo em quem tem a doença. Falsa segurança.
Exemplo: programa de rastreamento de câncer gástrico no Japão usa endoscopia digestiva alta — exame com riscos reais (sedação profunda, perfuração). Por isso, a decisão de implementar um programa de rastreamento sempre envolve análise de custo-benefício.

12 Estadiamento

Depois de confirmado o diagnóstico, é preciso saber até onde vai a doença antes de propor o tratamento. Isso é o estadiamento.

A extensão da doença é classificada em três níveis: tumor primário (T), linfonodos regionais (N) e metástases à distância (M) — sistema TNM.

Equipe multidisciplinar do paciente oncológico

O prontuário oncológico é compartilhado por múltiplos profissionais que acompanham o paciente ao longo de todo o tratamento:

  • Cirurgião oncológico
  • Oncologista clínico (quimioterapia)
  • Radioterapeuta
  • Fisioterapeuta
  • Dentista (especialmente em cânceres de cabeça e pescoço)
  • Assistente social
  • Psicólogo
  • Nutricionista

Seguimento (follow-up)

Após o tratamento, o paciente é acompanhado com exames laboratoriais e de imagem periódicos para:

  • Detectar recidiva precocemente
  • Comparar a evolução da doença ao longo do tempo
  • Diferenciar cicatriz residual de tumor viável